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Mensagens

Expresso da meia-noite

Cheira a bolo. A última vez que desenhei esta receita ainda estavas aqui, algures entre o sofá e a meia temperatura daquela visita à cozinha. Cheira a bolo quando entro em casa e a ti, de rompante. A tela continua quieta, no mesmo sítio, talvez à espera que voltes. O espelho continua ao contrário, com as costas viradas para aqui. Parece que está de castigo, como quando somos crianças. A tua roupa está na gaveta, a escova também e um silêncio grelado nas mesinhas velhas limpas e arrumadas contigo. Ainda tenho coisas para te entregar e um sufoco doido no meio da voz. Ele não sai, por entre trabalhos e as horas que se querem o mais ocupadas quanto possível. Talvez seja o cansaço e o peso de mais um dia de trabalho. Talvez seja este silêncio gritante de quando entro em casa. Talvez sejam as respostas por dar. Esta merda de ter que fazer um risco no chão e dizer "somos desconhecidos" chega a ser imoral de tão estranha, mesmo que necessária. Há coisas na vida com as quais nunc...

O amor incondicional existe

Ia escrever um imenso texto sobre a minha mãe, mas fiquei mudo, porque me parece tudo ridículo. Por que quando se sente tudo isto por alguém e se vê tanto que de explicável pouco tem, as palavras todas do mundo não chegariam. Às vezes é preciso saber ficar em silêncio e demonstrar coisas. Por que terá sido o silêncio o maior ensinamento que, destes 50 anos dela e 24 de convivência mútua, importe.  A minha mãe faz 50 anos hoje. Só espero um dia ter a dignidade suficiente para ser um pai como a mãe que ela foi para mim. Não me falta nada e o amor é tão grande que, como os lugares da mesa grande que temos, chega para mais um. A minha mãe tem uns olhos verdes oceano dos mais bonitos e profundos que já vi. Está cansada, de tanto trabalhar, mas sei que o faz por mim e pelas minhas irmãs. É a maior âncora e o maior suporte. E talvez a maior imensidão que guardo. A minha mãe surpreende-me todos os dias por ser tão infinitamente boa para com os outros. E isso é um guia que me orienta t...

Sábado à noite

É sábado à noite, como muitos outros. A chave roda a fechadura e a porta abre. Um armário à frente, com livros e garrafas por trás. Uma janela ao fundo. Ao lado direito, uma tela. Verdes com grenás tímidos, e um amarelo tosco fundido no fundo. Um televisor mudo e um móvel raso. Há um tapete no chão. E um silêncio toma as rédeas do campo, e do escuro singular que faz nesta mor esquina de uma cidade qualquer. Uma solidão talhada a canivete, devagar para não doer. Um atalho para a minha própria mente: uma explosão entre a surdina do televisor, os livros por terminar e um longe da família que escolhi. Há mil cores na tela, e um espírito penumbrante que me dá cabo da espinha e adormece os pés: é a idade e o desrespeito pelo corpo que gritam tão alto quanto as cordas aguentam. Nem o piano é tão branco e nem a música me comove da mesma forma. E há rotina inteira para recalcular. E um vazio de perguntas por responder. O silêncio sempre foi uma cena fodida. Por meses esqueci-me disso. Acomodei...

Abraço

Desde há semanas que estou de luto: morreu-me uma amiga.  Faz provavelmente dois anos (ou talvez mais) desde que nos conhecemos. Naquela altura, ela oscilava entre uma felicidade estonteante de um relacionamento novo e um luto triste de Inverno por duas perdas consecutivas. A amiga que eu conheci é certamente um farrapo deste élan. Era uma miúda que sabia imenso de cinema e de música, e apresentou-me de mão dada Elis Regina, pela qual me apaixonei sem pestanejar. Nos olhos, desenhava um risco incrível, onde exibia uma sombra cinzenta de colocar inveja aos céus. Olhava para ela, no silêncio ocasional da sua personalidade, e sentia-me na linha de respiração de um artista nato: alguém que não precisa de exibir nada para convencer alguém. Aquele silêncio também me ensinava que não bastava parecer, era preciso ser. Aquilo que parecemos e o que lhe suporta a existência, mas todos os criativos são gigantes com pés de barro. A minha amiga é dos poucos casos que contrariam Saramago...

A geração do meio.

Até o amor vem em conta gotas. A dada altura, no meio do cansaço, pedimos sentimentos médios. "Um amor médio, por favor". Sentir de mais atrapalha a visão, turva o coração e dificulta a estratégia de planear uma vida. Ainda mais agora, que ninguém tem emprego certo. Vem um vento e as nossas pernas tremem - as casas voltaram a ser feitas de palha, como nos três porquinhos. Somos a geração dos 50%: um meio amor, um meio carro, uma meia casa, um meio funcionário, um meio patrão, uma meia renda, um meio preço da carne. Ao pequeno-almoço: meia de leite e meia torrada sem manteiga, porque não podemos engordar. Temos que ter um meio corpo, um meio físico, um meio projecto de perfeição tatuada na carne. O nosso mundo perdeu graça. Somos uma seca. O planisfério do conhecimento, da filosofia, dos conceito decorados das cartilhas... É como um jogo da macaca para adultos: ganha quem sair menos vezes da zona de conforto. Deixamos de viver a intensidade das coisas, e o sabor perfeito que ...

Lágrimas

O amor há-de sempre de me emocionar. O de uma criança a nascer ou de uma pessoa a envelhecer. O dos namorados, a abraçarem-se, na rua. E dos que não o podem fazer, por medo que seja.  Mas até esse se vê na timidez do sorriso ou no encosto de ombro envergonhado, ou naquele olhar tímido de quem despe a alma de outra pessoa. Há-de sempre me emocionar a entrega completa e o pai que abraça um filho, depois de uma vitória ou um fracasso. Hão-de provocar-me lágrimas os avós cansados que estragam os netos ou os netos que acompanham os avós ao médico. Hei-de chorar sempre quando o amor se cruzar comigo. Tentarei sorrir de volta, mesmo a chorar. As lágrimas lavam a alma e o amor também. Os sinais de amor nem sequer deviam ser os corações ou o vermelho, podiam ser lágrimas. A chuva é aquilo que mais se parece com o amor: é tímida ou feroz, é determinada ou frágil, alenta, mas também preocupa. A chuva, como o amor, aparece quando menos esperamos, estragando ou construindo planos. Às vezes tam...

Cenas um bocado fodidas

Por que da primeira vez que vi este vídeo fui às lágrimas, como quase ia agora, ao revê-lo. Por que às vezes nós desistimos e erramos nos castings . Por que descobrimos que o arrependimento não nos devolve pessoas, nem memórias nem torna presentes os cheiros que, depois de nos abandonarem, ficam no ar. Por que é quando o silêncio nos doma que percebemos a infinita consequência da perda e do lamento do mau tratamento. Por que sabemos, assim, que o rio corre infinitamente para o mar, e não pára a tempo de lhe congelarmos um enésimo de riqueza. por que a vida nos ensina muitas coisas. Por que sempre chorei por quem destas dores sofre, por já delas ter sofrido, numa inundação de compaixão. Por que alguém me ensinou isto, calada, a sete palmos do chão, enquanto eu, aos gritos, lhe tentava dizer: "pudesse eu ter lido o futuro".