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Mensagens

O trivial e o que te faz feliz

As trivialidades são quase sempre o mais importante. É das coisas pequenas que se inunda a vida. Não há-de haver assunto entusiasmante todos os dias, mas existe um elo comum de coisas semelhantes que se partilham e sustentam a construção de uma relação. Nisso, as relações são como a felicidade: há pingas dela que são tão absolutas que te deixam anestesiado, mas a maior parte do tempo estás com os pés molhados em água velha, nas pequenas felicidades que sabes de cor e já nem valorizas. Luís Gonçalves Ferreira

Rei Autista

Deitou a cama por baixo dele, embrulhou o cobertor, e a mão escorregou quase rente ao chão, num descaído de braço que se sentia a pensar. O dedo começa a ver um frio de serpente que o encaracola, por ele a cima, numa animalidade sem igual. Sente-se um calafrio geral e o meta-corpo encosta-se mais um pouco, até onde o ombro descaído permite. O dedo escorrega logo a seguir, toca o chão, e traz consigo o resto do corpo. O animal não desiste, mesmo sabendo que o seu peso era o causador do deslocamento que lhe poderia causar a morte, a fuga precipitada ou mesmo o fracasso de uma conspiração. Determinada, a besta enrosca mais um pouco, ergue a cabeça e estica o rabo, naquela força final de quem quer alcançar a fruta mais virtuosa da árvore da vida. O moribundo, cheio de sede, sente catucarem-se-lhe os lábios por uma suculenta sensação. Era como num leito do berço que se chupa, suga com força, sendo como demasiado óbvia a imagem da mãe que encosta o teto à boca do filho, naquela que poderia ...

Mistério da Vida

Plano verde, um caminho de pedra e as mesas prontas para a partilha. Venho de baixo, de trazer mais uns convidados. Ou uns amigos. Talvez família, mas sei que era amor. "Onde estão?", perguntam-me, curiosos, por entre questões sobre a piscina e explicações sobre o parque. Respondo, entusiasmado, "mais a cima. Ali, são os que saltam à corda!". Aproximei-me mais um pouco e a minha mãe, de costas voltadas, com uma amiga de infância, ria-se como uma menina, saltando à corda. Ou como duas meninas ou três, pareciam um batalhão que até fiquei confuso. É a imagem mais bonita da minha vida nos últimos tempos: vi a minha mãe menina. Ela está onde sempre esteve, apesar do trabalho, das canseiras e de uma rotina que, tantas vezes, deixa planos para segundo plano. Hoje foi especialmente bom por isto e por ter a terra, as pessoas, os cantares, as mantas no chão e o verde da grama perante os olhos. Pela certeza absoluta de que a natureza, em si própria, me humaniza, pelo sentir c...

Fato escuro

Um tímido olhar que desce, camisa a baixo, quando penso na tua morte. É um silêncio perturbador que toma conta do meu luto, como o final de um enterro. Existe algo de muito familiar nestas lágrimas secas, nesta falta de tristeza e talvez nesta estúpida esperança de que alguma coisa mudasse. Mas não. Teres partido foi como teres morrido. Por mais que acredite em vida depois da morte, respeite as almas e as afeições, o meu lado analítico, lógico e crítico diz-me que morreste. Há noites em que acordo e parece que ainda há do teu perfume numa casa onde não tinhas estado. É estranho saber que a morte tem de absolutamente imenso quanto mágico: dá para tudo, desculpa tudo e responde a questões nenhumas como dá respostas a todas. Tal e qual a acreditar em deuses. O silêncio perturbador da morte transformou-se na felicidade de estar sozinho. Haverá revolta mais profunda do que essa? Luís Gonçalves Ferreira 

O laço

Foste o para sempre mais próximo do qual já estive. Do irremediável sabor de nem ter medo da entrega, da paixão eterna, ou da falta de lucidez de partir para um mundo sem nada na algibeira. Achei que me alimentaria do teu amor, dele retiraria frutos, vantagens e um sustento espiritual pelo qual me escusaria a partilhar como mais ninguém. Auto-suficiência da tua luz. Lembro-me de acariciar e desejar continuar a fazê-lo, por mais longe dos tempos que estivesse. Ficar ali, sentado, até que as pregas dos olhos se juntassem às das maçãs do rosto e rugas da boca escorregassem nos contornos do queixo. Lembro-me de te querer tão ardentemente que sentia a pele descolar-se do músculo e o músculo dos ossos. O febril que era o meu corpo quando tocava o teu.  És como uma memória infantil presa num jardim onde rosas moram com espinhos. Sei do cheiro de ser eu contigo, mas já não sei do teu cheiro. Não é mais meu. Essa é a metamorfose do estar longe fisicamente: a fusão da história que, sozinh...

Sombra

Há uma dada altura na minha vida em que ceguei. Ceguei loucamente. Deixei de ver os meus olhos, a minha boca, e até de cheirar o meu perfume. Perdi as sinestesias e meta-físicas. Deixei-me nos astros e no irremediável de outro corpo. Ceguei em mim, mas vi-me, mais adiante. Decorei uns traços, a textura de uns cabelos e a calma de um cheiro. Nenhum deles era meu, mas sabia-os de cor. Comecei a inventar-lhes dramas e falas e achar instâncias. Já fui cego numa causa tão própria e transfigurada... Eu ceguei em todas as formas que tinha, em qualquer dos sentidos que sentia. Enganei o cérebro. Talvez tenha sido o mais próximo da morte que algum dia tenha estado: uma total estranheza sobre os umbigos.  Há coisas na vida que cegam. E o amor, esse cósmico e estranho monitor, aqueceu um ferro quente e furou-me os olhos até ao cérebro.  Há um misto de tristeza e indiferença que sobra, agora. De profunda tristeza, talvez seja o termo correcto. Houve tempos em que nem a minha sombra c...

Teatros

O pano deslizou, como no final da cena. Escorregou o pó, e, com ele, o drama do aplauso que já não há. A maquilhagem está velha e a pele cansada. A voz revoltou-se e ficou rouca: talvez ainda grite "não quero mais". As bailarinas, de pés pequeninos, aprontam as pontas para a despedida: o coreógrafo dá os últimos retoques à circunstância da sua obra prima. Eu, calado, escuto o triunfo da sala. O peso da glória dos estandartes do Reino, da velha pradaria de saias e marfins dos bastidores. As inglórias paredes do corredor sem fim, até à estrela da companhia. Do único camarim exclusivo sai agora mofo. Outrora ouviam-se berros e uma contagem à boca dos bastidores. A mais elevada de sempre numas goelas do percebedor de luz: "mais à direita, Madame ". Acabou. Imperava agora o silêncio, entre um teto grelado e outro pedaço caído e um palco de talhados buracos na madeira. Quantas dores vivemos na vida e quantos regressos fazemos ao local onde fomos felizes? Quantos textos ...