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Mensagens

Apontamento sobre a felicidade

Por que nem só a tristeza é poética: cheguei à conclusão que tenho uma vida bonita. Agora, de repente, ao chegar a casa. E era só este o apontamento que queria deixar escrito. A minha vida é bonita. Espero que a lucidez possa sempre reconhecer, no futuro, a mesma beleza. Será a felicidade algo tão simples como é senti-la sem motivo aparente? Luís Gonçalves Ferreira

Despedidas

Desejei por muitos dias que estivesses mais longe. Especialmente quando te encontrava em todos os locais a que ia e apenas queria fugir de ti. Ainda chorava em cada fotografia que visse tua, perguntava-me o que estarias a fazer, a sentir, até onde eu poderia estar, em ti. Esperei para que estivesses longe. Longe o bastante para que todos os sentimentos fossem menores, ou não tão imediatos. Ou para que todos fossem diferentes daquilo que eram. Para que o sofrimento vindo do teu cheiro deixasse de existir. Ou para que a metamorfose esquecida do inverso não fosse pensada. Talvez só te quisesse perto, junto a mim, e tão-só me achava fraco para não suportar mais uma perda. Mais um pedaço de ti que desses para depois roubar. Questionei-me tantas vezes e o silêncio era um brinde. Uma antítese.  Passou muito tempo desde então. Estive com outras pessoas, mais do que as que queria. Mais do que aquelas que desejei. Apenas procurei um canto para me esconder, encostar e finalmente chegar a...

Parafuso

A excelsa manipulação sensorial da tua vontade afirma: "quero". O braço comanda, pelos braços no ar, apontando no sentido contrário. A presa, num rápido dos olhos, afirma a mesma palavra, sem nada de concreto dizer. As rugas fálicas confirmam o inevitável que existe em ti. Segue-se um cortejo de manifestações confusas misturadas aos brandos costumes dos sentimentos que sei termos possuído. -Termos, - sermos, - existirmos, e, - um mar de passados terrenos, memoriais, de nazis e fascistas, que se seguiram num projecto de usurpação da virgindade que à minha crença quase tinhas tirado. Como se fosse possível ser mais ou menos puro ou estar mais ou menos convicto. As tuas visões particulares sobre um conjunto de assuntos deixaram-me só com um parafuso preso no esófago, que engoli por engano. Consegui subi-lo um pouco, mas uma voz disse "bebe-o". Meia dúzia de gotas e... acordei do sonho. Era uma metáfora. Vi aquele corpo estranho descer-me: confuso. Na proporç...

Aurinda

Estávamos em terras de Torga, num quente de Verão justo, por locais das duas estações do ano. Ia o relógio alto e vem o nosso primeiro "anjinho". Era uma senhora. Os seus bons 70 anos, cabelos já brancos, estatura baixa, cara de avó serena, mas despachada. Tinha umas mãos pequeninas e com rugas, e uma voz que apressadamente confirmou a intenção de participar da procissão da Vila. Escolhemos a melhor figura (a primeira merece sempre um prémio, talvez pela ansiedade de começar). Definimos uma Senhora das Angústias: vestido vermelho púrpura de veludo de qualidade, manto azul (quase roxo) a pôr na cabeça. Conversou sempre: perguntou como se deveria comportar, que gestos fazer, como poderia se sentar sem parecer mal. Disse que há dois ou três anos tinha tido a sorte de figurar de Senhora do Carmo, curiosamente o nome da sua Mãe. Diz que se sentiu emocionada. "Sensibilizada", usou a palavra. Eu senti as lágrimas na voz. Notava-se que era bem tratada: pele modesta "c...

O trivial e o que te faz feliz

As trivialidades são quase sempre o mais importante. É das coisas pequenas que se inunda a vida. Não há-de haver assunto entusiasmante todos os dias, mas existe um elo comum de coisas semelhantes que se partilham e sustentam a construção de uma relação. Nisso, as relações são como a felicidade: há pingas dela que são tão absolutas que te deixam anestesiado, mas a maior parte do tempo estás com os pés molhados em água velha, nas pequenas felicidades que sabes de cor e já nem valorizas. Luís Gonçalves Ferreira

Rei Autista

Deitou a cama por baixo dele, embrulhou o cobertor, e a mão escorregou quase rente ao chão, num descaído de braço que se sentia a pensar. O dedo começa a ver um frio de serpente que o encaracola, por ele a cima, numa animalidade sem igual. Sente-se um calafrio geral e o meta-corpo encosta-se mais um pouco, até onde o ombro descaído permite. O dedo escorrega logo a seguir, toca o chão, e traz consigo o resto do corpo. O animal não desiste, mesmo sabendo que o seu peso era o causador do deslocamento que lhe poderia causar a morte, a fuga precipitada ou mesmo o fracasso de uma conspiração. Determinada, a besta enrosca mais um pouco, ergue a cabeça e estica o rabo, naquela força final de quem quer alcançar a fruta mais virtuosa da árvore da vida. O moribundo, cheio de sede, sente catucarem-se-lhe os lábios por uma suculenta sensação. Era como num leito do berço que se chupa, suga com força, sendo como demasiado óbvia a imagem da mãe que encosta o teto à boca do filho, naquela que poderia ...

Mistério da Vida

Plano verde, um caminho de pedra e as mesas prontas para a partilha. Venho de baixo, de trazer mais uns convidados. Ou uns amigos. Talvez família, mas sei que era amor. "Onde estão?", perguntam-me, curiosos, por entre questões sobre a piscina e explicações sobre o parque. Respondo, entusiasmado, "mais a cima. Ali, são os que saltam à corda!". Aproximei-me mais um pouco e a minha mãe, de costas voltadas, com uma amiga de infância, ria-se como uma menina, saltando à corda. Ou como duas meninas ou três, pareciam um batalhão que até fiquei confuso. É a imagem mais bonita da minha vida nos últimos tempos: vi a minha mãe menina. Ela está onde sempre esteve, apesar do trabalho, das canseiras e de uma rotina que, tantas vezes, deixa planos para segundo plano. Hoje foi especialmente bom por isto e por ter a terra, as pessoas, os cantares, as mantas no chão e o verde da grama perante os olhos. Pela certeza absoluta de que a natureza, em si própria, me humaniza, pelo sentir c...