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Mensagens

À Francisca

A pequena Francisca tem pouco mais de dois meses, mas fala por uma vida inteira: chegou sem pedir a ninguém, trouxe alegria e um espírito puro de inocência. Olho para ela e lembro-me como é maravilhosa a existência humana e como é gratificante estar aqui, neste momento. Os olhos pequeninos, as mãos que não agarram nada, e um sorriso que conquista o mundo. Nada é pensado, ou intelectualizado, simplesmente congratula, da forma mais pura de quem não sabe nomes, nem pré-conceitos, mesmo dos que amam uma existência tão minúscula, mas tão poderosa. Nunca tinha acompanhado um crescimento humano de perto como tenho acompanhado o da Francisca. Naturalmente por que agora a minha consciência se faz desperta a um conjunto de circunstâncias novas, e quantifica os pormenores de uma outra forma. É produto do próprio crescimento: do meu, através dela. E dela através daqueles que a observam. Os laços que criamos ao longo da vida definem-nos: ela já é nossa e nós dela. Os bebés ridicularizam o ...

Guião aberto

Era perto das 11 e o relógio dizia pelo final da aula. Negociei, junto da professora, os pormenores de uma reposição. Dei-me ao caminho para casa. Ponderei, no entretanto, estudar na biblioteca ou até na livraria do centro da cidade. Fiquei-me pela última opção: a da preguiça, como sempre. Chave que roda o automóvel, automóvel que se envolve com a estrada, caminho que termina aqui. Aqui - o local onde me encontro, especialmente quando estou sozinho, por onde me partilhei contigo.  - "Tenho que comprar pão", pensei. "Mas provavelmente não tenho dinheiro. Faço-o depois", continuei.  As botas que tinha apertavam-me (são novas e não se encaixaram ao pé). Descalcei-as, encostando-as a um canto, adiei o lanche da manhã mais uns minutos. Actualizei-me nas redes sociais, vi os e-mails, fitei os apontamentos do exame de quinta. Desviei o olhar e procrastinei. Até a ida ao pão. Mais uns minutos... Lembrei-me: "Tenho uma multa para pagar, junto da fatura atrasada da ...

Barreiras invisíveis

Procurei por toda a literatura que me define ao tentar encontrar "a" frase para este preciso momento. Falhou Pessoa e até Saramago. Kafka não me acrescenta nada e Miguel Esteves Cardoso está mudo. Inês Pedrosa esgotou-se em nenhum aconselhamento. Estou perdido e fazes-me falta. Parti agora para a música: Antony & The Johnsons tem a sua sempiterna Hope There's Someone - de tanto encaixar não serve mais (ferida que roça em si mesma). Tenho uma fenda no coração, entretanto. Ela não fecha nem dá segurança de poder curar-se. Segui agora em frente e visito todas as músicas que já me emocionaram. Espera, afinal, ainda existe uma que serve sempre tudo nos últimos tempos! Não... o buraco continua por se emendar. Não há salvação. Resgato-me agora aos pensamentos: às verdades universais que contei a mim mesmo para fugir de todas as fossas em mim abertas. A céu aberto. Fiquei a céu aberto. Morada oculta, escoltada, acorrentada. Magoada. Das pseudo-psicologias do sentir, das ...

Crónica de um deus revoltado

O meu nome é Deus. Já fui preto, branco, amarelo e afins. Fui-o à vossa imagem e à semelhança das coisas que vos dizem respeito. Quiseram que fosse protetor do dinheiro, da guerra, do amor, sexo e da fortuna. Fui Rei dos Reis e Luz da Luz. Deus verdadeiro, Deus verdadeiro. Justifiquei poder e fracasso. Fui quase sempre humano: ora cabeça de gato, ora fronte de elefante. O meu nome é Deus e sou como vós, por que vós assim o quiseste. O meu nome é Deus e dei-vos santos em troca de altares. Ofereci-vos proteção em horas de aflição e fui justificação máxima em horas de Glória. Vós sois, afinal, inúteis: é a mim que quereis chegar. Deram-me tronos e logo os tiraram, querendo que do vosso poder carnal de alguma coisa de mim tivesse. Dei-vos um filho, até. Ou vários. Casei com prostitutas, deusas e pari semi-deuses e deuses completos: vocês alegravam-se quando algo de mim podiam ter. Dei-vos bastardos como autênticos, e dos reis que vos ofereci glorificam-lhes a genética. Construí impérios...

Júlia

É este o Pretérito Mais Que Perfeito que nos traz, hoje, aqui, a celebrar: Júlia.  Conhecemos uma outra, há uns anos, e dela jamais esquecemos. Forte, determinada, líder nata, avó-coragem, mãe. Sobretudo, mãe. Deixou-nos da sua presença física mas ficou a sua voz, a estada, o carisma. Às vezes acho que ainda sinto o seu cheiro. Ela é vezes sem conta recordada. Nunca esquecida: uma funcionária que a diz, um cliente que a dita, uma conversa em família que a recorda. Nunca te vamos esquecer. E este não-esquecimento é a prova que a partilha e o amor são a tatuagem mais profunda que podemos rasgar no coração dos outros. É esta a mensagem que queríamos partilhar convosco. Todos estes adjetivos, pronomes, substantivos, rimam contigo, Júlia. Agora para ti, Júlia-irmã, Júlia-filha, Júlia-amiga. És forte, determinada, líder-nata, irmã-coragem, e irás ser, tenho a certeza, mãe. Sobretudo, mãe. Como irmã mais velha que és, também soubeste ensinar-me coisas, disciplinar-me noutras, e a...

Apontamento sobre a felicidade

Por que nem só a tristeza é poética: cheguei à conclusão que tenho uma vida bonita. Agora, de repente, ao chegar a casa. E era só este o apontamento que queria deixar escrito. A minha vida é bonita. Espero que a lucidez possa sempre reconhecer, no futuro, a mesma beleza. Será a felicidade algo tão simples como é senti-la sem motivo aparente? Luís Gonçalves Ferreira

Despedidas

Desejei por muitos dias que estivesses mais longe. Especialmente quando te encontrava em todos os locais a que ia e apenas queria fugir de ti. Ainda chorava em cada fotografia que visse tua, perguntava-me o que estarias a fazer, a sentir, até onde eu poderia estar, em ti. Esperei para que estivesses longe. Longe o bastante para que todos os sentimentos fossem menores, ou não tão imediatos. Ou para que todos fossem diferentes daquilo que eram. Para que o sofrimento vindo do teu cheiro deixasse de existir. Ou para que a metamorfose esquecida do inverso não fosse pensada. Talvez só te quisesse perto, junto a mim, e tão-só me achava fraco para não suportar mais uma perda. Mais um pedaço de ti que desses para depois roubar. Questionei-me tantas vezes e o silêncio era um brinde. Uma antítese.  Passou muito tempo desde então. Estive com outras pessoas, mais do que as que queria. Mais do que aquelas que desejei. Apenas procurei um canto para me esconder, encostar e finalmente chegar a...