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Mensagens

pombeiro

Ignorantes, decidimos em cima do joelho que queríamos fazer a Rota do Românico. Entre os vales, optámos pelo do Sousa. Combinámos e seguimos em direção ao primeiro destino: Pombeiro, muito perto de Felgueiras. Um monumento encravado num vale, perdido no tempo, como os beneditinos tanto gostavam: muito fresco, cheio de verde, apesar dos demónios que a terra tem visto. Começamos logo a rezar: o claustro, a igreja e as pedras - tudo que rima com ruínas, à boa maneira desta querela universal entre a razão e deus, cujas invasões dos franceses e o liberalismo rasgaram na nossa memória coletiva. Certamente, foi por isso que os regrantes tanto rezaram: pecados que foram os seus ricos anéis e pesadas mitras; hoje, na imensidão, o Pombeiro está entregue a um curioso segurança que toca Yann Tiersen num órgão ibérico. Ainda agora, perdido na desilusão de tantas igrejas fechadas, é nele que esbarram as minhas emoções. Não avisou nada para além de que sabia pouco de passado, que era um curioso: a h...

Cântico Negro de José Régio

"Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces Estendendo-me os braços, e seguros De que seria bom que eu os ouvisse Quando me dizem: "vem por aqui!" Eu olho-os com olhos lassos, (Há, nos olhos meus, ironias e cansaços) E cruzo os braços, E nunca vou por ali... A minha glória é esta: Criar desumanidades! Não acompanhar ninguém. — Que eu vivo com o mesmo sem-vontade Com que rasguei o ventre à minha mãe Não, não vou por aí! Só vou por onde Me levam meus próprios passos... Se ao que busco saber nenhum de vós responde Por que me repetis: "vem por aqui!"? Prefiro escorregar nos becos lamacentos, Redemoinhar aos ventos, Como farrapos, arrastar os pés sangrentos, A ir por aí... Se vim ao mundo, foi Só para desflorar florestas virgens, E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada! O mais que faço não vale nada. Como, pois, sereis vós Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem Para eu derrubar os meus obstáculos?... Corre, nas...

catedrais

Há duas ou três coisas de que gosto muito: as pessoas castiças são uma delas. Daquelas que têm carácter e dizem as coisas sem rodeios; das que continuam a amar, mesmo depois de mil demónios lhes terem arrancado o coração; das que abraçam e beijam e amam pessoas do mesmo sexo na rua, sem medo dos ovos podres que são os olhares dos outros. Eu gosto muito de pessoas que se dão e se entregam e se amam. E quando me esqueço de como é bom ser e sentir, abrindo uma espécie de saleiro emocional na minha cabeça, aparece um sorriso maroto que me faz tropeçar.  Gosto de gargalhadas e de dentes felizes. Gosto muito daquele jeito meio atrapalhado de alternativo-pop. Gosto muito de gente que me faz sentir calor dentro das veias. Gosto ainda mais quando, entre copos de vinho, os gestos falam mais do que mil bocas em conjunto.  Lamentos aos mapas, aos tempos e aos sonhos, e estaria certo que, na rua, em casa, no corpo e na mente, os sinos da catedral iriam tocar a repique por cada bei...

o que foi que aconteceu?

Recordo saudoso o primeiro dia em que te vi. Sinto que me apaixonei antes de ti; recortei bem o teu rosto, os teus lábios e o teu sorriso; desenhei muitas vezes a vida que tivemos juntos; tive-a antes de te ter. Lembro-me de não sentir muito do tanto que era amar-te mais de todos os dias. Ainda me tropeçam lágrimas por nunca esquecer os teus amigos, aqui em casa, rindo, enquanto planeava o próximo beijo que iria dar, naquele intervalo saudoso dos livros e dos móveis que, em conjunto, distribuíamos.  Hoje, depositado na minha solidão, sendo refém de algum desdém, encerro a alma e recordo o teu cheiro, no bom gosto que emprestavas aos teus cozinhados ou às camisas que engomavas.  Olho a porta de madeira e imagino-a a abrir, comigo sentado no sofá, à tua espera, meio furioso por mais uma demora; saudades.  Nada disto é igual desde que nos separamos. Dantes sangrava em jato, a cada despedida, mas hoje vais em conta-gotas. Chamam-lhe maturidade e eu entendo distância....

Ode à Virgem das Dores

Choras tu, Mãe Dolorosa, pelo filho perdido, morto e escarrado. Choras tu, Mãe das Mães, pelo filho encontrado, abandonado e elevado; Choras tu, Mãe das Dores, pelos milagres assistidos e as virtudes anunciadas. Choras tu, de mãos abertas e desencontradas, com olhos desesperados procurando a ressurreição. Choras tu, mãe do Mundo, nas sete setas cravadas no teu peito, uma perante outra; uma por entre a outra. Aceitaste a profecia no templo; tomaste o medo no caminho para o Egito; desesperaste as ruas no caminho inocente ao templo; sujaste as mãos do sangue do Cristo pelo caminho ao Gólgota; morreste por dentro quando Ele morreu na cruz, entregando-te a João o Amado, sabendo-te, mesmo assim, eternamente sozinha; desesperaste por dentro quando o sentiste frio nos teus braços; sorriste de pranto quando Arimateia, o homem rico de Jerusalém, ofereceu um túmulo para o corpo vagabundo e chagado do Emanuel outrora fruto do teu ventre, agora mártir e profeta de todas os tempos. À V...

solitude

Relembro as nossas fotografias; os eventos a que fomos juntos; as coisas que nos dissemos; as promessas que fizemos. Relembro-nos nos recantos que construímos e em todas as coisas que estão nos mesmos locais, após todo este tempo de meia-estação. Escrevo-te perante o silêncio que ecoa no regresso... Mudei em todos os entretantos que surgiram; em todas as negações que provoquei; em todas as provocações que evitei. O discurso do equilíbrio, da temperança e do amor universal encontram-se nesta letargia que sinto, agora que esse tumor que é a saudade se fez gente dentro de mim. São alguns minutos de solitude por dia que, como chuva de verão, secam corações insatisfeitos. Era mais novo e escrevia sobre auto-diálise. Somos, por entre o infinito, os nossos medos. Sou os meus medos: restam dúvidas, as mesmas certezas e umas tantas barreiras invisíveis.    Luís Gonçalves Ferreira 17 de julho de 2017